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quarta-feira, outubro 28, 2015

O homem e o viaduto

Hoje eu vi um homem sentado na beira do viaduto lendo um livro. Sim, isso mesmo, lendo um livro. E ele tinha um riso no rosto, um chinelo nos pés e uma expressão de estar aproveitando muito aquele momento. Um momento tão raro, um momento tão seu, um momento que se perde em nossos dias.

Era cedo, quase nove horas da manhã. O mundo enlouquecia em carros, buzinas, movimento. O dia estava nublado, cinza, bem cinza. E parecia que isso não fazia o menor sentido para o homem que estava sentado, com uma perna cruzada sobre a mureta do viaduto, lendo seu livro.
Avistei-o ao longe, na calçada que sobe e passa por baixo do viaduto. Estava só. Voltava da academia, onde havia descontado toda a minha ânsia de me libertar dos problemas corriqueiros do cotidiano em socos e chutes na minha aula favorita de muay thai.  Cansada e com o pensamento no restante do dia turbulento que teria. E ali estava ele, o homem que lia sentado no viaduto, calmo, rindo. Ele ria. E esse é o fantástico de toda essa cena. Pois poderia passar despercebida por ele, poderia nem ter notado que aquilo era um livro, mas meu olhar se perdeu no encanto da cena.

E nunca a hashtag que uso quase sempre em minhas fotos fez sentido. A poesia do cotidiano estava explicita ali, em forma de um homem que lia um livro na beirada do viaduto. Pensei em registrar a cena, mas achei que não era necessário. A imagem mais pura da minha hashtag favorita se fez presente nessa manhã e não precisou ser fotografada, ficou guardada em mim. 

quarta-feira, julho 23, 2014

A escada rolante



Caminhar pelas estações do metrô de São Paulo é qualquer coisa parecida com mergulhar em um mundo paralelo. Todos os dias, eu subo e desço as escadas da Consolação. Certas vezes pela rolante, ou, quando a pressa me obriga, corro as escadas que não se movem, mas que estáticas e rígidas, nos impõe o trabalho pesado de simplesmente subir as pernas e alcançar mais um degrau.
O mais engraçado nesse vai e vem de pessoas é notar como cada uma delas, nesse curto espaço de tempo entre a subida e a descida da escada, nos são parecidas e ao mesmo tempo completamente diferentes. Quando desço as escadas, sempre pela manhã, a cara amassada da maioria delas (e a minha) me impede de prestar muita atenção aos gestos e expressões. Na volta, quando subo as escadas, geralmente a rolante, porque convenhamos no final do dia o que mais precisamos é de uma máquina que faça o trabalho pesado pelos nossos pés!
Ao subir a escada rolante me transporto para um mundo novo. Subindo cruzo com a escada que desce e posso, nesse instante, reparar em cada rosto, gesto, sorriso, olhar de quem está indo ao encontro do velho trem.
Ali vem a senhora com a roupa fina e o nariz empinado, logo atrás o casal de namorados, onde um sempre desafia a gravidade descendo de costas simplesmente para ficar mais alguns segundos observando o ser amado. Mais acima, a menina que vem se equilibrando com seu pequeno espelho enquanto retoca o batom vermelho. Mais abaixo, a criança que ignora veementemente as ordens da mãe e fica subindo e descendo ao contrário. Ao longe, avisto o belo rapaz de cabelos lisos, ele me olha, mas eu desvio. Lá no topo a senhora hesitante, não sabe qual pé coloca primeiro e na dúvida dá um pulinho se agarrando ao corrimão oscilante e me tira um sorriso. Lá vem mais um adolescente que desce sem nem ver, um olho no celular outro no mp3.
E eu estou ali, subindo e observando o constante vai e vem. Aquele pequeno intervalo de tempo entre o chão e o topo. Todos aqueles rostos, todas aquelas vidas. Elas que me ignoram e nem ao menos sabem que me intrigam.

Há dias em que a cabeça pesa, e no caminho até a escada vou mastigando meu dia a dia, chutando as pedrinhas imaginárias dos meus problemas. Às vezes venho conversando, mexendo no celular, rindo, cantando. Mas me deparo com a escada. Noto que cada degrau que vai subindo lentamente me faz um convite para arriscar mais uma subida. Paro e hesito, assim como a velha senhora, e dou o primeiro passo. E lá estou eu novamente, cruzando vidas em rostos, em busca de acolhida.