sexta-feira, maio 02, 2014

Exigiria do tempo essa fatídica ideia de que o agora e o para já fossem menos dolorosos para aqueles que vivem da ociosa paixão de esperar.

quinta-feira, maio 01, 2014

Devaneios de domingo


Thássia Moro

Era tarde de domingo de primavera, exatamente 15:33. Um dia comum, como a maioria dos dias. As flores no jardim davam a falsa impressão de comodidade, eram belas, coloridas e se espremiam por um espaço ao sol no pequeno canteiro ainda não revirado. Lá estava ela, sentada a beira do jardim, mexendo nas flores. Parecia destoar da paisagem, a rua em movimento, mas calma, e ela lá em seu canto costumeiro, ia sempre revirar o jardim do prédio. Ele a observava, cheio de interesse e uma espécie de desprezo. Parecia louca, perdida em pensamentos. Não sabia até hoje por que nunca ninguém havia a impedido de mexer em um ambiente da área comum, será que pensavam que ela o arrumava? Para ele parecia que ela o deixava em pedaços toda vez que se sentava ali. De um lado para o outro, a cabeça em movimento, como uma dança que só ela sabia.
Ela era a vizinha de algum andar, não sabia ao certo qual, cruzará uma ou duas vezes nas escadas e no hall. Parecia que nunca pegava o elevador. O prédio não era alto, nem haviam tantos apartamentos, mas não sabia qual ela morava. Tentará indagar o porteiro, mas de tão distraído ao futebol e a vida alheia, temia ser mais um assunto na seleta lista fofocas dos condôminos. Preferia a descrição.
Nunca trocara uma palavra, nem bom dia, nem boa tarde, muito menos boa noite. Nunca a vira de noite. Apenas uma vez se entreolharam, simples. Olhos escuros, profundos. Cabelos negros, ondulados como o mar, bonita feito uma oferenda a Iemanjá. Era assim que gostava de imaginá-la. Perdia-a pela rotina, mas quando chegava domingo tirava-a dos devaneios e das gavetas do cotidiano. Quando chovia ela não vinha, sumia feito fumaça. Uma nuvem de comparações. Gostava do céu aberto, do sol na pele. Branca feito uma nuvem de dias de verão. Nunca se escondia dos raios, por mais fortes que fossem, eles pareciam não se arriscar a machucá-la, não ficava vermelha, nem bronzeada. Talvez um pouco corada, mas de longe não podia ter certeza, apenas imaginava.
Em tempos normais teria descido e tirado ao menos duas palavras daquela boca, mas hoje não. Talvez na próxima semana. Perderia o ângulo do balançar silencioso da cabeça em seu vai e vem enquanto retirava uma planta morta, uma erva daninha. Intitulara como uma contemplação. Algumas vezes colocava uma música ao fundo e passava horas observando-a. Um sorriso no canto do lábio, pequeno. Como se a conhecesse, como se permitisse o momento de solidão e prazer que a mantinham naquele jardim.

Algumas vezes achava que ela plantava e arrancava a mesma flor repetidas vezes, mas quando passava observando no outro dia notava que não, ela apenas abria o espaço para os pequenos brotos nascerem.


(Continua...)

terça-feira, março 18, 2014

A outra metade

A impunidade nesse país é tão gritante que não importa quão absurdo possa ser o fato, como os tristes casos da Claudia e do Amarildo, eles vão passar impunes de uma maneira ou outra. Seja pelo tratamento como são dados pela mídia, seja pela impunidade latente da nossa justiça, seja pelo esquecimento e desconhecimento de boa parte da população. Somos todos vítimas dessa chacina contínua chamada sociedade. 
Eis aqui uma gota da revolta de alguém que se depara com o sofrimento de quem não pode gritar, nem ser ouvida. A violência atinge a todos. Não podemos nos acostumar com o absurdo, nem deixar de refletir sobre os efeitos deles na rotina desse país. A evolução parte do coletivo e esse é mais um ano decisivo na história desse Brasil tão desigual. E mais da metade das pessoas vão esquecer os casos. A outra metade vai ser taxada de chata, pois sempre irá se lembrar e buscar lutar. Escolha seu lado.


"Só falta alguém espremer o jornal
Pra sair sangue, sangue, sangue"










segunda-feira, março 17, 2014

Angústias

Aquela dor e aquela necessidade de sair do lugar sem se mover. Angústia, o passatempo dos que se ferem e preferem não se permitir tudo aos poucos e aos muitos. A limitação interior é o oposto do que se vende por aí, mas mesmo tentando, nem sempre é possível comprar seu antídoto. É preciso tomar doses de exemplos e desassossegos. 
Imaginar uma vida que não é sua sendo sua é tão comum quanto encontrar quem venda receitas para combater a angustia de um domingo a noite. 
É preciso abrir espaço para que seja possível criar laços, pois o único aliado da angústia é o medo, que feito uma moldura mal pendurada só faz serventia ao prego que sustenta menos peso.
Libertar-se para ser livre. Jargão de todo começo de semana que nem sempre surte o efeito desejado. 
Angustias de cada dia, livre-me da insônia que o resto eu equilibro na moldura da semana.

sábado, março 08, 2014

Cronologia de um eu

Houve um tempo em que o silêncio era o senhor da razão. A reflexão, o ato de se recolher em seu eu, era o ponto alto da sabedoria humana.
Haviam aqueles que se sentavam em uma pedra no alto da montanha, ou se escondiam em cavernas. Refletindo. Com o passar dos anos escrever, ler, se tornou uma parte importante desse silêncio interior. Não havia necessidade da fala se as palavras podiam gritar pelas folhas escritas.
Chegou um tempo em que o diálogo ganha sua função, dizer aos outros o que o eu está pensando, sentindo.
E nasceram as loucuras. Os gritos, a necessidade se partilha sem se perder. E foi nesse momento que partiu o ato da reflexão. Nos dias de hoje o diálogo evoluiu, se tornou modelado conforme cada eu. Nem sempre perfeito, nem sempre constante. O futuro promete a volta do silêncio, o diálogo com seus dedos e com uma pequena tela. Perca-se em um mundo recheado de egos confusos tentando dividir a atenção de um eu sozinho. Mesmo onde há sempre um lado positivo, a falta da evolução do diálogo ainda irá sufocar a humanidade dentro de uma caverna, ou escondido em uma montanha que cada um lapidou.


sexta-feira, fevereiro 14, 2014

A única estrela no céu de uma noite sem fim


Madrugada de 14 de fevereiro de 2014

A dor da perda é a dor que mais me intriga. ela vem sufocante, te prende a fala, o ar. Te consome lentamente, seja um minuto, dois, uma vida. Nos agarramos no pretexto e caçamos as culpas. Mas só há a exatidão do vazio. Apenas ele, tão calmo e simples.
As lembranças se tornam alento, o futuro um desespero. Nossa única certeza na vida é que um dia a morte chega, mas não aprendemos a lidar com ela. Abraços, consolos e lágrimas nos prendem e nos libertam. O que permanece é o brilho, esse nunca se apaga. Assim como a única estrela no céu está noite.
Cada etapa tem seu caminho, mas toda trajetória tem um fim. Como sabemos, só o tempo reconstrói e fixa o que for preciso. Para quem nunca deixou de brilhar, nem a eternidade terá o poder de apagar. E o que nos resta é ir reacendendo a cada dia esse brilho que renasce.
Existem infinitos finitos, mas existem brilhos que são eternos. Só a certeza da lembrança é o que nos mantém firmes em nossa fé.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Amargura

Prefiro que me digam coisas doces, o amargo da vida ja me basta. Adoço meu café com quase meio quilo de açúcar, de amargo já me basta a vida. Um toque de leite pra tirar a escuridão. Prefiro os doces graudos da prateleira da padaria, pois de pequeno já me bastam os contornos. 
Eis o pote de chocolate meio amargo que me dei ontem, de amargo que me tiro só há o doce que me sobra. Amargos doces pedaços de vida.