sexta-feira, dezembro 04, 2015



Dorme
que em sono
todo sonho vira morada,
vira descanso,
pousada.

Dorme
que em cada sonho
veja a estrada,
as chegadas
para a nova partida.

Dorme
que meus olhos se fecham
lentos, tranquilos
te vendo dormir.

Dorme
que essa calma que transparece dormindo
um dia te fato te encontre acordada.

Dorme
que eu velo teu sono
ficando de olho para que todos os seus quereres,
ao menos em sonho,
queiram te encontrar.

A menina do céu estrelado



A menina do céu estrelado
tinha o mundo aos seus pés
seus desejos quase sempre contados,
seus medos escondidos.

A menina do céu estrelado,
corre o tempo todo para onde possa ser entendida.
Mas se esconde das suas verdades.

A menina do céu estrelado é doce feito fruta madura,
mas tem casca em proteção para mordidas mais longas.


A menina do céu estrelado tem o dom de ter estrelas só dela, tem a sorte de ter quem sempre se deite e passe as noites velando seu sono, seus sonhos.

A menina do céu estrelado prefere céu de nuvens,
para que seus medos fiquem protegidos pela fina camada das certezas.


A menina do céu estrelado tem um brilho tão único, mas se perde em constelações que a ofuscam.


A menina do céu estrelado tem seu céu particular feito sob o concreto,
pois lá fora o céu infinito tem distâncias demais para suas vontades.


A menina do céu estrelado é simplesmente aquela que espera que a lua permita que o sol amanheça e aqueça seus desejos mais escondidos.


A menina do céu estrelado é feito uma estrela que sabe onde está, sabe exatamente onde é o seu lugar, mas não sabe que mesmo sozinha ela pode brilhar.


A menina do céu estrelado dorme em sua noite particular, se abre aos poucos para que elas saiam de si, mas sempre se esconde de volta por entre as nuvens.


 A menina do céu estrelado tem o dom se ser a mais amada do mundo, de saber dizer com o olhar, mesmo quando eles gritam por silêncio.


A menina do céu estrelado dorme sempre com o dia finalizado, com a lua se recolhendo ao centro do céu, mas espera por pontos finais que já foram finalizados.


A menina do céu estrelado dorme ao meu lado, um sonho inconstante, um sono constante de quem carrega o mundo nas costas.


A menina do céu estrelado devia deixar que o tempo passasse que as feridas que esconde cicatrizassem e deixar de se escorar em céus que não foram feitos para seu brilho.


A menina do céu estrelado é a certeza de que toda noite o dia nascerá e o o sol vai voltar, mesmo que ela mesma não saiba disso.

quarta-feira, outubro 28, 2015

O homem e o viaduto

Hoje eu vi um homem sentado na beira do viaduto lendo um livro. Sim, isso mesmo, lendo um livro. E ele tinha um riso no rosto, um chinelo nos pés e uma expressão de estar aproveitando muito aquele momento. Um momento tão raro, um momento tão seu, um momento que se perde em nossos dias.

Era cedo, quase nove horas da manhã. O mundo enlouquecia em carros, buzinas, movimento. O dia estava nublado, cinza, bem cinza. E parecia que isso não fazia o menor sentido para o homem que estava sentado, com uma perna cruzada sobre a mureta do viaduto, lendo seu livro.
Avistei-o ao longe, na calçada que sobe e passa por baixo do viaduto. Estava só. Voltava da academia, onde havia descontado toda a minha ânsia de me libertar dos problemas corriqueiros do cotidiano em socos e chutes na minha aula favorita de muay thai.  Cansada e com o pensamento no restante do dia turbulento que teria. E ali estava ele, o homem que lia sentado no viaduto, calmo, rindo. Ele ria. E esse é o fantástico de toda essa cena. Pois poderia passar despercebida por ele, poderia nem ter notado que aquilo era um livro, mas meu olhar se perdeu no encanto da cena.

E nunca a hashtag que uso quase sempre em minhas fotos fez sentido. A poesia do cotidiano estava explicita ali, em forma de um homem que lia um livro na beirada do viaduto. Pensei em registrar a cena, mas achei que não era necessário. A imagem mais pura da minha hashtag favorita se fez presente nessa manhã e não precisou ser fotografada, ficou guardada em mim. 

quinta-feira, setembro 10, 2015

Crônica do amor maduro


Se há uma coisa que o amor ensina é que não somos donos dele. Não há como fingir que não se ama quando começou a amar, podemos negar, negar muito, mas de fato, ele já te prendeu. Mas entenda, há um abismo enorme entre o que é amor e o que não é. E saiba que não existe como você deixar de amar, não se iluda amor não acaba. Amor modifica. E se acabou, tenha certeza, não era amor. Era paixão, loucura, vontade, tesão, mas amor, não.

Não temos controle algum sobre o amor, ele nasce, cresce e cria raízes em nós, mas não morre. Amor é eterno. Fica perpetuado em uma frase, um pensamento, um sorriso sincero no olhar, uma lágrima de dor, uma foto, um adeus. 
Lembre-se sempre, você não o controla, não é seu dono. Você é dono dos seus quereres, fica a seu critério querer ou não amar, mas o amor é livre. Nunca prenda, nunca sufoque, nunca esqueça. Se esquecer, não era amor. O esquecer que toda psicologia vende e todo ex te propõe é apenas a sensação de deixar o amor do outro livre seguir em frente. E só. Nunca deixará de ser amor. 

Não há poderes plenos, não existe controle. Amor é amor e ponto. Só quem sente sabe. Não existe o verbo sentir amor. Amor é presente, futuro, nunca passado. O amor do passado é aquele que se modificou e que pode se tornar diversas outras coisas, mas nunca pode deixar de ser uma forma de amor. Entenda amar é deixar o amor livre e ter certeza que essa liberdade só será plena em você assim. E que não estamos nunca livres deles.

Aceite todos os “eu te amos” que alguém puder te dar, mesmo que não seja recíproco. Saiba que, o fato de alguém dizer essas três simples e doces palavras, pode significar muito. Mas não solte “eu te amos” aos céus. Amar é saber o que é amor, não confunda momentaneidade com ele. Somos pressionados para viver o momento, paixões e loucuras. O amor é tudo isso, mas não só. Amor vive independente disso, essa é a diferença. E é por isso que muitas paixões nunca serão amores. Não trate como “eu te amo” quem é momentâneo.

Pedir para alguém deixar de te amar é ser cruel e egoísta com o amor. Não existe como, não há mapa, nem meios. E pedir para alguém te amar também. Amor vem como brisa leve, como chuva fina, como um olhar de despedida, como um roçar de cócegas que arrepia. Amar é saber que não existe como explicar o quanto você ama alguém. Mesmo que você não seja amado da mesma forma. Por isso, nunca peça para alguém deixar de te amar. É o próprio amor que se dará conta disso, quando souber a hora certa de modificar. Entenda, amor é livre e está condicionado a liberdade do amor do outro, mas nem sempre esse outro quer deixar de te amar, então deixe esse amor livre até o momento em que ele se modifique. E só.

segunda-feira, setembro 07, 2015

Amores vazios


Amores vazios não são amores.
Amores vazios te olham nos olhos
te dizem verdades,
te negam depois.

Amores vazios te afastam,
te repelem,
tem medo de ser amor.

Amores vazios não sabem amar.
Não se entregam,
não abrem as portas,
fogem ao menor sinal de amor.

Amores vazios repetem histórias,
se fazem memória
e vão embora 
no momento em que podiam 
sentir o gosto de ficar.

Amores vazios não deixam respostas,
te viram as costas
e perdem a chance de aprender 
a não respirar.

Amores vazios ficam a um passo
de saber o por que
são vazios.
Um passo,
de se fazer,
profundo,
de ser amor verdadeiro.

segunda-feira, agosto 31, 2015

Sabe?


Sabe, há certas coisas que não são maleáveis: um dia frio, um dia quente, um sorriso amarelo, um choro fingido, um coração partido, um regador moído.
Há coisas que nunca voltarão a ser o que foram, nem há como retroceder dias e momentos. Há saudades incontáveis. De lugares, pessoas. Mas sinto mais falta do tempo, do papo, das banalidades, do dia a dia, do sorriso frouxo, do brilho no olho. É o que mais faz falta. Mesmo estando aqui, sempre.
Sabe, certas coisas são irreparáveis, mas outras são incansavelmente eternas. E mesmo quando a saudade aperta, a distância empurra, eu volto para trás com o pensamento. Aquele, que te traz aqui. Da maneira que há de ser. Como o tempo permitiu ter. E basta, pois o tudo é tudo o que você condiciona para ser seu, mesmo com todas as imposições da vida. 
Há sempre uma memória que te desperta, te impulsiona, te traz de volta o riso frouxo e te transporta a realidade do cotidiano. E te faz sentir de novo aquela sensação de que foi tudo intenso até o fim ou, até que um dia encontre seu fim, sabe?

segunda-feira, agosto 03, 2015

Contornos

Solto feito conto 
envolto em todo um plano
desse tempo sem contorno.

Preso nesse dia
dia
mais um dia
que passa.
Arrasta.

Toda forma tem contornos
toda dor tem partida. 
O sorriso torto tem motivo,
tem retorno.
Sem retorno.

Na certeza da acolhida
faz do tempo recanto
esbarra na garra
na força
da vida.

Dia
a dia
vai levando
vai matando
vai guardando
vai brotando
sem retorno
sem saída.