sexta-feira, janeiro 18, 2013

Cautela e nutella




É muito difícil mover uma etapa. Os blocos do tempo são pesados, mesmo que seu tamanho não seja tão proporcional ao seu peso, mudar de direção, dar o próximo passo; tudo depende de um pouco de força de vontade e disposição. E não importa o mês do ano. É sempre mais fácil virar o rosto e não perceber que a porta está ali, entreaberta, esperando um único empurrão para permitir a entrada.
Entrar em um novo compasso só faz com que os espaços costumeiros percam suas cores e ganhem novas tonalidades. Querer buscar a chance sem sair do lugar pode ser uma alternativa, mas tenha certeza que é só o começo do passo. Mover requer movimento, troca. Sem mais, o importante é acreditar.
Só anda com fé quem costuma acreditar que o próximo passo pode não ser tão distante.
E que o treze que vem ao fim desse ano seja o primeiro passo para as novas e reais mudanças, em seu mesmo lugar, ou além. 
Sem mais, uma dose de cautela, por favor.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Eu finjo ter paciência



"Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
E o mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência"

segunda-feira, outubro 22, 2012

Imensas frases feitas de mar

                                                                      Foto: Heduardo Kiesse

O dia em que a imensidão virar mar eu vou mergulhar como sempre sonhei. Flutuar pelas marolas das frases que o permeiam. Me guiar pelas estrelas de cada novo paragrafo. E ele vai além daquilo que as letras delimitam, ele um dia vai virar imagem. Imensas quanto meu sonho de dividi-las com todos.
O dia em que o imensidão virar mar está por vir, pode ser daqui um pouco, ou daqui um tempo. Vai deixar de ser devaneio e vai permitir que as ondas que o empurram de volta para a praia, sejam as ondas que o levarão para o seu real imenso.
O dia que a imensidão virar mar, vai ser noite. E salpicarão estrelas reais, ancoradas nos desenhos toscos feitos em uma folha  mal rabiscada em uma tarde qualquer.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Pedras de Paulo

                                           Foto: Heduardo Kiesse

Decorei os pisos do quintal de casa. Essas são as últimas coisas que me lembro antes de sair de casa, de  cabeça baixa em direção ao sol. Era dia de chuva e não fitar o chão era como arriscar levar um tombo, mas também permanecer em pé sem se preocupar com os escorregões. Quem nunca cai, também não sabe o que é levantar. 
Eram quase três da tarde, horário atípico para começar algo novo, o mundo me acostumou a dizer que tudo que começa bem tem que ser pela manhã, antes do raiar do sol, dos primeiros cantos dos pássaros. Mas nem sempre o que o mundo me diz eu pretendo escolher. Sem nexo. Segui sem guarda-chuva pela garoa fina da tarde, contando os passos e as falhas em cada piso saí, portão a fora, atrás daquilo que um dia nunca soube o que seria, mas que um belo dia resolvi encontrar. E acordei com a sensação de que já sabia o que queria. 
Pelo caminho os movimentos habituais do dia a dia do mundo e eu ali na janela lateral de um carro alugado. Era sexta-feira véspera de feriado, um feriado que só seria na segunda, mas que sempre começa na sexta. Ao parar em uma avenida movimentada observei na parede desenhada, pichada, chorada, declamada por um poeta urbano uma frase. Sempre acreditei que aqueles que usam dos espaços que são costumeiros ao nosso olhar para se expressar são donos de tudo aquilo que eles puderem criar. O trecho era 'I'll keep singing my song'. E fazia todo o sentido naquele momento de decisão que eu estava passando. Nunca ouse duvidar do poder que uma frase pode exercer sobre você, mesmo escrita por outro, ela pode despertar.
Aquela letra escrita as pressas, sem cuidado, coberta do descompasso que carregava, pode ter sido o primeiro despertar. 
As letras que me acuso a viver são hoje os reflexos de uma frase de parede meia boca que deixei em uma avenida sem pisos molhados, trincados, ou escorregadios. Foi quando deixei de sentir medo em cada passo que comecei a chutar as pedras que impediam meu novo caminho.



quarta-feira, setembro 12, 2012

Art de coração



Eu consumo arte como se fossem balas. Preciso a cada segundo de um som, um sorriso teatral, um gesto dramático, algumas frases soltas. Em minha estante de palácios reservo a cada imagem um pedestal em que permeia a arte.
Visto de leves horizontes minhas necessidades, sentada em um canto estratégico da sala onde posso respirar e pensar aos olhos da imensa janela. Eu preciso de vento e flores, perto ou longe. Perto o quanto for tocável pelos sonhos, longe o quanto eu nunca possa alcançá-los por inteiro. Vivo em um imenso catavento de ilusões e planos, mas vivo sempre de arte. Descobri que meus bloqueios são sensações que nunca experimentei, todas breves.
Eis que me exponho como as páginas do livro que leio, serena, no metro. A doce voz ao meu redor me envolvendo em bucólicas lembranças da minha infância perto da natureza, do mar dos meus fins de semana. Eis uma breve descrição dos meus sinais.
Escrever em primeira pessoa é saber que a arte te expõe por completo. Quanto a escrever por meio da voz de outros é vestir-se de inúmeras capas que podem nos levar a qualquer lugar, circunstâncias novas. Não julgo nenhuma opção, sou adepta das trocas e mudanças que a folha em branco nos propõe. As brancas, bege e belas, brancas amareladas folhas, digitais ou não. Eis as gavetas dos papéis e textos dispersos com a letra feia mais caprichada que existe.
Viver de arte é um oficio momentâneo, procuro encontrar sua resolução máxima. Desacredito naquilo que não posso acreditar, ou seja em nada que não tenha arte. E prevejo que não há nada que não possa ser vista com um pequeno detalhe dela. Reinvenção de linhas, gestos, sonhos. Meu lema, minha fé. Amor.
As palavras, as vozes, a arte, me confortam. Escrevo ao rodapé aquilo que nunca gritei.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Bolhas de expectativas

                                                                    Carmo Dalla Vecchia

Haja o que houver sempre colocou na cabeça que criar ilusões sobre as pessoas que criava em sua mente não passaria de mais um degrau que construiria em sua vida e que ao fim de uma jornada sempre o derrubava lentamente, rolando em cima de demônios chamados expectativas. Essa era uma lição que pretendia levar adiante dessa vez, mas no fundo sabia que iria construir novamente uma escada, esperando terminar de escalar os degraus sem tombar, ou ao menos sabendo dosar os passos. Um de cada vez, lentos, nunca atropelados.
Não adiantava mudar muito, mesmo se tornando sombrio e frio, nunca deixará de ser persistente e acreditava que cada nova escada de expectativas que montava para as pessoas de sua vida um dia deixasse-o chegar ao topo. Distante e simples. Como diria sua voz interior (que tinha rosto e não era o seu), o mais importante não é deixar de viver sob o que criamos das pessoas do nosso convívio, mas lembrar-se sempre que o que criamos nunca deve superar a realidade. Ria toda vez que lembrava como ela dizia isso, com os pés sobre a mesa da sala, a preferida e nunca desorganizada. Era a única que permitia ser superior aos  objetos daquela mesa. "As pessoas são de carne, mas no fundo todos somos de plástico, feitos de bolhas que cada um estoura como pode", falava enquanto mordia uma maça roubada da cozinha. Divagava encantadoramente.
Pensava sempre que no fundo era mais ou menos isso, mais para mais do que para menos. Confuso jeito doce de encantar o rude dono da mesinha da sala endeusada. Era uma bolha que estourava por dia, mas uma nova que se formava em torno da sua voz interior preferida.

terça-feira, agosto 28, 2012

A dimensão da imensidão

                                                                             Erom Cordeiro

Estava lendo esse texto ontem, justamente no momento em que mais precisava ler algo assim. E sempre existe uma luz onde podemos nos orientar procurando por nós. 
Faz tanto sentido que espero que a mensagem que as vezes não saem por mim encontrem aqueles a quem eu destino através das letras de quem me entende por inteiro. 


"A dimensão do profundo: o espírito e a espiritualidade


O ser humano não possui apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioriadade que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual.
O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É  o ser humano inteiro que por sua consciência se percebe partencendo ao Todo e como porção integrante dele. Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos, escutamos, pensamos e amamos.  Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu profundo.  As coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão a que  chamamos de profundidade.
Assim, uma montanha não é apenas uma montanha.  Pelo fato de ser montanha, transmite o sentido da majestade.  O mar evoca a grandiosidade, o céu estrelado, a imensidão, os vincos profundos do rosto de um ancião, à dura luta  da vida e os olhos brilhantes de uma criança, o mistério da vida.
É próprio do ser humano, portador de espírito, perceber valores e significados e não apenas elencar fatos e ações.  Com efeito, o que realmente conta para as pessoas, não são tanto as coisas que lhes acontecem mas o que elas significam para suas vidas e que tipo de experiências marcantes lhes proporcionaram.
Tudo que acontece carrega, existencialmente, um caráter simbólico, ou podemos dizer até sacramental. Já observava finamente Goethe: "tudo o que é passageiro não é senão  um sinal”(Alles Vergängliche ist nur ein Zeichen”). É da natureza do sinal-sacramento tornar presente um sentido maior, transcendente, realizá-lo na pessoa e faze-lo objeto de experiência. Neste sentido, todo evento nos relembra aquilo que vivenciamos e nutre nossa profundidade, vale dizer, nossa espiritualidade.
É por isso que enchemos nossos lares com fotos e objetos amados de nossos pais, avós, familiares e amigos; de todos aqueles que entram em nossas vidas e que tem significado para nós.  Pode ser a última camisa usada pelo pai que morreu de um enfarte fulminante com apenas 54 anos, o pente de madeira da avó querida que faleceu já há anos ou a folha seca dentro de um livro, enviada pelo namorado cheio de saudades. Estas coisas não são apenas objetos;  são sacramentos que nos falam para o nosso profundo, nos lembram pessoas amadas ou acontecimentos significativos para nossas vidas
O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade, tão bem descrita pelo zenbudismo. “Você é o mundo, é o todo” dizem os Upanishads  da Índia enquanto o guru aponta para o universo.  Ou “Você é tudo” como muitos yogis dizem.  O Reino de Deus (Malkuta d’Alaha ou ‘os Princípios Guias do Todo) estão dentro de vós” proclamou Jesus.  Estas afirmações nos remetem a uma experiência viva ao invés de uma simples doutrina.
A experiência de base é que estamos ligados e religados (a raiz da palavra ‘religião’) uns aos outros e todos com a Fonte Originária.  Um fio de energia, de vida e de sentido passa por todos os seres tornando-os um cosmos ao invés de caos, uma sinfonia ao invés de cacofonia. Blaise Pascal que além de genial matemático era também místico, disse incisivamente; “é o coração que sente Deus, não a razão” (Pensées, frag. 277).  Este tipo de experiência transfigura tudo.  Tudo se torna permeado de veneração e unção.
As religiões vivem desta experiência espiritual. Elas são posteriores a ela. Articulam-na em doutrinas, ritos, celebrações e caminhos éticos e espirituais.  Sua função primordial é criar e oferecer as condições necessárias para permitir a todas as pessoas e comunidades de mergulharem na realidade divina e atingir uma experiência pessoal do Espírito Criador. Infelizmente muitas delas se tornaram doentes de fundamentalismo e de doutrinalismo que dificultam a experiência espiritual.
Esta experiência, precisamente por ser experiência e não doutrina, irradia serenidade e profunda paz, acompanhada pela ausência do medo.  Sentimo-nos amados, abraçados e acolhidos pelo Seio Divino.  O que nos  acontece, acontece no seu amor.  Mesmo a morte não nos mete medo; é assumida como parte da vida, como o grande momento alquímico da transformação que nos permite estar verdadeiramente no Todo, no coração de Deus. Precisamos passar pela morte para viver mais e melhor."
Leonardo Boff