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quinta-feira, agosto 30, 2012

Bolhas de expectativas

                                                                    Carmo Dalla Vecchia

Haja o que houver sempre colocou na cabeça que criar ilusões sobre as pessoas que criava em sua mente não passaria de mais um degrau que construiria em sua vida e que ao fim de uma jornada sempre o derrubava lentamente, rolando em cima de demônios chamados expectativas. Essa era uma lição que pretendia levar adiante dessa vez, mas no fundo sabia que iria construir novamente uma escada, esperando terminar de escalar os degraus sem tombar, ou ao menos sabendo dosar os passos. Um de cada vez, lentos, nunca atropelados.
Não adiantava mudar muito, mesmo se tornando sombrio e frio, nunca deixará de ser persistente e acreditava que cada nova escada de expectativas que montava para as pessoas de sua vida um dia deixasse-o chegar ao topo. Distante e simples. Como diria sua voz interior (que tinha rosto e não era o seu), o mais importante não é deixar de viver sob o que criamos das pessoas do nosso convívio, mas lembrar-se sempre que o que criamos nunca deve superar a realidade. Ria toda vez que lembrava como ela dizia isso, com os pés sobre a mesa da sala, a preferida e nunca desorganizada. Era a única que permitia ser superior aos  objetos daquela mesa. "As pessoas são de carne, mas no fundo todos somos de plástico, feitos de bolhas que cada um estoura como pode", falava enquanto mordia uma maça roubada da cozinha. Divagava encantadoramente.
Pensava sempre que no fundo era mais ou menos isso, mais para mais do que para menos. Confuso jeito doce de encantar o rude dono da mesinha da sala endeusada. Era uma bolha que estourava por dia, mas uma nova que se formava em torno da sua voz interior preferida.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Desorganizado mundo meu


A sensação. Paira como uma brisa afasta-se lentamente. Era tarde de domingo, tenso e densamente povoado. Pessoas ao redor causavam o reboliço de muitos passos, o som que vinha do andar de cima fazia seu cabelo arrepiar ao pensar do porque precisam caminhar pela casa toda?.”desOrganizado mundo meu” dizia a plaquinha que pendurara verão passado em sua última faxina de planos, papéis e sonhos.Sabe-se pouco sobre, mas nunca o suficiente para não buscar mais. A curiosidade das pessoas é como um sala cheia, não adianta você se mexer, alguém vai sempre estar esbarrando. E elas não deixam de lotar.
O almoço estava servido, no jardim corriam algumas crianças, primos distantes, nova geração enjaulada que ao ver o verde já se sentem livres. O resumo de poucas coisas tornara-se irreal demais para ela. Desejava que Paulo estivesse lá, dividir essas sensações de solidão e presença com alguém que pelo menos entendia os rodapés da sua vida.
As pessoas conheciam seu passado, sua infância, mas não seu presente. O presente mais próximo era a fofoca sobre o moço novo que rondava sua casa. ‘Ah esses vizinhos... ’ lamentava quando sua mãe indagava quem ele era. Disfarçava com um leve sorriso e logo se voltava para o jogo de futebol sob seu jardim. Que horas eram mesmo? 

terça-feira, agosto 30, 2011

Escadas

- Segundo alguns dicionários que já li por aí existem certas palavras que os significados são mutáveis. Não sei o quanto isso interessa nos dias de hoje já que o imutável é passivo de erros. Todas as coisas que se transformam são positivas, mas nem sempre são levadas a sério. Eu mesma escrevendo semana passada citei dois autores que nunca imaginem dizendo coisas que disseram há uns anos atrás.
- Nunca acreditei nessa ideia de que mudar pode ser tão positivo. É tudo relativo demais para ser sempre coisa boa. Respondeu ele esticando os pés sobre a cadeira ao lado.
- Pode até ser, mas se você reparar bem quase tudo que se expande se estende ou se contrai troca o tom. E olhe que nós nem chegamos a falar de música ainda - disse ela sorrindo.
Ele olhou ao redor e lembrou-se de uma frase que sua avó que sempre dizia em sua infância.
- 'Se eu soubesse que o céu era tão perto, não havia comprado escadas tão longas' - repetiu suas lembranças ao vento.
Ela ponderou, olhou e sorriu como se aquelas pequenas palavras fossem a maior solução dos últimos tempos. Contemplou o céu e disse:
- Hoje parece distante.
- Sempre foi - ele olhou para cima e viu um pássaro - mas sempre existem aqueles que podem voar.
Permaneceram no jardim a tarde de domingo toda, ela reunindo pequenas frases, flores e gestos em seu caderno. Ele contemplando nostalgias sentimentalóides que só os dois conseguiam ver. 

segunda-feira, agosto 22, 2011

Essa tal de vida

-Essa tal de vida me deixa encontrar vestígios da pequena solidão do meu tempo. Eu passo os dias vivendo as horas com suas datas marcadas, seus compromissos fixos, seu calendário egoísta. Faço contas para não me atrasar, pago as contas atrasadas, deixo sempre para outro dia trocar a lâmpada da varanda. Talvez seja porque eu prefira a luz do sol entrando lá todo dia, talvez seja porque eu não  acho esse tal de tempo no meu dia para pequenos afazeres.
Não preciso de ninguém ditando minhas horas, controlando meus horários, essa tal de vida faz isso por mim. Horário de chegar, de sair. Prefiro a confusão que sou, pena que ela nunca se imponha. Faço promessas ao relógio, mas meu tempo se confunde com o dele. Essa tal de vida é um despertador desfigurado que sempre toca uma hora antes do que deveria, mas que nunca se atrasa, nem pára.
Espero terminar meu capítulo antes que comecem a me regular, antes que eu comece a me regular. Queria saber contar coisas sobre a vida das pessoas em que o tempo não fosse necessário, mas é tão difícil. Ele é a única certeza que temos de que essa tal de vida segue e corre na maioria das vezes, mesmo quando você praticamente implora para ela ir mais devagar.

Repousou a caneca sobre a mesa e respirou profundamente.

-Não preciso dele. Necessito dele. Responsável pela chegada dos meus cabelos brancos, pela minha constante olheira matinal. Essa tal de vida desconta esse não querer de queres do correr das horas em tardes de domingo regadas a azedumes e filmes burocráticos sobre vidas com céu azul e finais felizes. Balela!

Deu uma leve olhada no jornal de dois dias atrás e permaneceu no jardim o dia todo só para contrariar sua agenda e teimar ser independente dessa tal de vida.

terça-feira, agosto 16, 2011

Branco

Criar, criar, criar e a falsa realidade que uma folha em branco proporciona. Captar frases soltas e salvá-las no celular são o que me resta quando as imensidões se achegam em mim nos piores momentos. Se três frases não são suficientes prefiro recortar as novas imagens que sempre estão aqui. O paradoxo que meus alter egos estão imersos é o pior dos últimos tempos. Saiam dessa inercia do poder pretender entender o que querer que isso não fará chover. Viram? Está um caco.
Voltarei a folha em branco. Paulo e Ana, ou seja lá quem agora são, aguardem.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Conversas que não são jogadas fora

-Ao conto de fadas eu reservo meu alento. Foi com ele que descobri o prazer de mergulhar em um novo mundo e recriá-lo dentro de mim, a imaginação é a porta de entrada para tudo que já construí na vida. E eu ainda tenho muitas portas para abrir. Mas você sabe que tudo que já vivi nesse meu universo paralelo de imensidões mutáveis e intensidades instantâneas também me levou a descrer e crer em coisas que nunca tive acesso. E não me refiro a nada que me seja de valor, mas sim pequenos sonhos frustados atrás de papéis. Muitos deles já amarelos naquelas tarde quentes e úmidas no sebo do meu avô. Olhou ao redor e mexeu nas orelhas das folhas sobre a mesa. - Tudo que aprendi foi ali, um pouco na rua, a mesa de bar também é uma grande escola. Tudo que não vivi também foi ali e é isso que me preocupa.
Mexeu nas folhas que estavam na mesa e organizou daquela maneira frenética de quando estava nervosa. Ele observou suas mãos trêmulas e segurou-as com leveza. Trocaram um olhar de cumplicidade. A confirmação estava por vir.

sexta-feira, julho 22, 2011

Aos porcos, as flores artificiais

O ponto de interseção que te liga ao seu eu é tão denso quanto a curva retilínea do seu destino. Pregado a você existem pontos, voltas, somas e espaços.
Se sentia como um papel em branco prestes a ser demarcado, rotulado, manchado, traçado. Não por suas mãos, mas com as de quem a engolem. 
O peso do tempo já não é mais um preocupação estética, mas de essência. Carregar toneladas de frustrações e colocá-las em pequenas estórias hipócritas já não era um prazer como antes. Sentia vontade de cuspir nos que a prendiam na gaiola dos sonhos roubados, inventados, difamados, atormentados. 
Um passo adiante tão curto e tão distante quanto uma caminhada de dias na floresta. Preferia se conter, se manter, se conhecer. Aos 28 e não possuía autocontrole emocional. Já dizia o poeta ' a vida é uma intenso conhecer de si mesmo'. E quem era a vida? E conhecer a quem? Procurar o que? A dúvida e as incertezas são consumíveis até os dentes. Não existem certezas. E essa busca já não interessava mais.
Olhou pela janela e viu as primeiras gotas de chuva escorrerem pelo vidro, a tarde quente de verão e a janela fechada. Abafava seus sentimentos como se cozinhasse aquele prato preferido dele. O telefone não tocou aquela tarde, nem pela manhã. A noite precisava de um convite ao som ora perturbador daquela máquina com números, ora vital em dias em que a escuridão não seria remédio e sim veneno.

domingo, julho 17, 2011

O tum tum tum do vento

Entrou no carro, a cabeça em transe. Dirigiu sem olhar pra onde, sem saber o rumo. Seguiu adiante por diversos metros sem olhar pelo retrovisor, acabara de deixar para trás meio mundo e meio sonho. Percorreu ruas e avenidas e só se deu conta de que estava na rodovia quando avistou a ponte. Ligou o rádio e percebeu que os sons incomodavam, nada de melodramas, nada de batidas enlouquecidas de instrumentos que não existem, nada de som. Preferiu o barulho do vento batendo no rosto e do misto entre o carro e a sensação de se livrar de algo. Deixar de lado é diferente de abandono que é diferente de escolha. E foi feita a dela.
Quando notou que havia se passado um bom tempo desde a última conferida no relógio resolveu retornar para a cidade. A paisagem da volta não era mais a mesma, parecia que algo ali havia mudado. Ao descer do carro próximo a um belo jardim próximo da sua casa, sentou-se e recolheu algumas flores. As janelas precisam respirar o frescor da primavera. Trouxe-as para perto da sua preferida, ao lado da sala, com a vista privilegiada para as suas bromélias.
Ao cair da noite o telefone tocou. Era quem precisava ser naquele momento, mas quem não era esperado anteriormente. As coisas estavam mudando e a cabeça se esvaia em pensamentos que há dois dias eram impensados. 
Um convite para uma conversa. Conversas não precisam de convites, mas sim de impulsos, seja ele o primeiro, ou o último. Então foi combinado, ao pé da mesa do pequeno aconchegante restaurante perto da Lagoa.
Nesse momento a questão era o próximo passo.

quinta-feira, julho 14, 2011

Eis aqui a gaveta aberta

Em uma estreita e bucólica rua da cidade, ao lado de duas árvores que rodeavam a calçada morava um sorriso suave. Era uma tarde pacata de primavera, na qual as flores respingavam as gotas da chuva e cobriam o chão com um rosa leve.
No segundo andar de uma casa simples e muito bem decorada, a dona do sorriso suave se prendia em pensamentos e pequenas tarefas domésticas. A chuva molhando as plantas no jardim deram um descanso para o trabalho matinal de jardinagem.
Ao som de uma melodia que enchia a casa, a mulher dançava suavemente pelos cômodos, como se deslizasse pelas paredes. Uma vida simples em  sua suavidade completa.
Alta, não mais gorda, nem mais magra do que se vê pelas ruas. Cabelos soltos, negros, ora castanhos. Olhos ternos, intrigantes, azuis esverdeados. Pele cor de neve, vermelha em dias de sol. Passos largos, decididos. Nem sempre certeiros, mas adiante.

terça-feira, julho 12, 2011

Abre

Fecha. A gaveta se fecha e as sensações podem ser guardadas junto com as meias. Sem disposição de cores, formas e tamanhos. As brancas e as azuis, as de correr e as de sair. O sorriso no canto da boca deixou de dizer desculpa e começou a dizer bem-vindo.
O sol reluzia e a cada novo salto pelos cômodos da casa intrigava paredes e teto. Agora foi. Celular ao canto da mesa. Era dia no farol. O vai e vem dos carros na avenida não irritavam. E nem a noite mal dormida fazia questão de estampar as olheiras rotineiras. O tilintar dos pratos e talheres na confeitaria não abria espaço para a dor de cabeça. Era festa na cidade mais bonita. Foi aceita a primeira dama da Sapucaí e o samba se abria como dia de São João. Um chocolate meu senhor.

quinta-feira, junho 09, 2011

Rumos, rondas e rezas

Era tarde de terça-feira. Os papéis sobre a mesa. A poeria sobre o chão da sala. Correspondências se empilhavam perto da porta. A rotina estava enlouquecendo com o descaso para com ela. O destino não ditava mais seus planos. Quem buscava seu caminho agora era ele.
Os devaneios da noite anterior impulsionaram Paulo a seguir um novo percurso. Cansado de perder o chão aos 25 anos, sabia que o cotidiano o sufocaria bem antes que completasse 30. Não compreendia o por que de tanta angústia no seu ser, mas sabia que algo deveria mudar.
As conversas jogadas fora com pessoas pelas ruas ajudavam, mas também conflitavam. A solidão de cada ser perturba quando se encontra com a nossa. Nem a brisa reconfortava. O tempo não era o mundo.

quarta-feira, março 16, 2011

A janela da interrogação

Ao ser humano eu dedico um momento de reflexão. Seu egoísmo é um sufoco que além de perturbar te questiona. Quem dera o mundo fosse mais questionador. O egoísmo que me liberta abre as portas do crescimento.
Enquanto alguns lutam, outros padecem, enquanto você se sufoca, outros respiram. E o relógio do meio dia não anda.
Ontem, tive um dia difícil. E as dificuldades que me cercam me fazem padecer. Não questiono minha janela, meu lençol. Meu travesseiro é um campo minado.
As letras correm pelos vãos. Seus dedos em minha mente me prendem a três ideais. Além deles só o supremo.
A supremacia do questionamento me intriga. Quero ser grande, quero voar. Mas só voar não é suficiente.
Ao passo que me contento, me lamento. Diminuir seus problemas não os isenta deles.
A janela ainda está aberta, o vento ainda sopra. A brisa de outrora é tão distante quanto à nuvem perdida. Essa nuvem que de tão duradoura preferíamos que fosse tão ligeira. E foi.
A nuvem atual se inicia por detrás da cortina, o azul certas vezes é cinza.
Questionar seu travesseiro não é ser maior. As suas respostas estão em você e em quem você se espelha. Através da janela vejo meu reflexo admirando meu eu interior. Meu inconsciente se transborda de imensidões e pensamentos. Questiono-me e me fortaleço. Repreendo-me e me supero.
A supremacia que me guia me conduz me ilumina. Minha janela ainda está aberta, o relógio do meio dia tenta andar.
O sol é o despertar de uma consciência, mas o sol ofusca. Sua consciência é imortal, você a deixa quando não mais está. A supremacia a faz questão de perpetuar.
A cada ideal fortalecido, concretizado me faz pensar que a antiga nuvem deixou rastros profundos. A nuvem que chega não combina com a cortina, talvez uma rosa melhore, talvez.
Já são duas da tarde. As duas novas casas passaram rápido demais. O que te lembra?
Questionar o tempo não te leva a controlá-lo. Eu quero a brisa que me alentava e me deixava mais perto. Quando eu fechar a janela ainda será dia, meu travesseiro já se prepara. A cortina já se fecha e meu reflexo continua intenso.
Quando cair na escuridão do questionamento, irei repassar esses momentos e talvez passe a crescer com eles, talvez precise de mais uma janela. Não seja egoísta, sua janela já é grande o suficiente.
O relógio andou mais oito casas, abrirei a janela e o sol não ofuscará, a nuvem estará na metade e a cortina não será tão ruim assim. Abrirei a janela.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Vejo folhas verdes ao redor. Um dia quente, porém nublado. O ócio inspirador bate a porta. Uma folha em branco ganha toques de frescor.

Sentado ao lado de uma garrafa d’água e aos pés o chão. Como voar em tinta negra sem tirar o peso das costas? Dois gatos ao redor dormem como se esse dia fosse o último, mas é somente mais um dia.
A vontade de se libertar se contrasta com o medo de não conseguir. O não é eletrizante, te prende, te move, te sufoca te liberta. A cada dois nãos um sim.
É não adianta nem tentar, você foi pego. O peso que te mantém no chão é o que te sufoca aos poucos. Talvez o momento seja de parar de refletir.
Sempre nessa época do ano, na qual o sol escalda e o vento inspira, os momentos são mais intensos. Essa sina de intensidade ainda nos comove me leva a imensidão, aos sentimentos que convivo diariamente. Ao passo que mergulho, não quero mais voltar. Ao passo que me engole não quer mais me soltar. E lá vamos nós de novo.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

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Sinta pelo menos uma vez uma vontade incontravél de não se controlar e deixar fluir suas emoções. Talvez possa notar que são desses momentos que você irá se recordar para sempre. Não espere que alguém te aprove, ou se aprovarem não pense que será rotineiro. Considere sentir um frio na barriga quando a dúvida pairar. E absorva todos os segundos, pois você só terá poucos momentos em sua vida. Não se arrependa. Não se desculpe demais, não leve muito em conta o que dizem. Jogue fora a lista de planos. Planos só servem em janeiro, em fevereiro eles já viraram delírios de uma possível sanidade. Sua loucura é imensidão. A imensidão que me transborda é tão intensa quanto o mar.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Em cada dia primeiro um novo cheiro de mar

Ao passo em que andava pela orla refletia sobre quantos grãos de areia eram necessários para se ter um mar. Desde manhã caminhando pela praia sabia que a próxima volta traria o sol mais ardente. Pensava sobre seus dias vividos desde o começo daquele mês que modificará estupidamente a sua vida. Entretanto, achando se o máximo do alento pensará que todos os meses foram diversos.

Enquanto os dias decorriam livremente no primeiro semestre daquele ano, corando os rostos das crianças no parquinho próximo a sua casa, ele se achava obscuro demais por ter planejado sonhos para 12 meses.
Não valeria a pena viver em planos, sempre soube que isso era apenas uma maneira de consumir mais e mais. Sempre achou que as pessoas se iludiam demais traçando metas, mas agora tinha quase certeza de que certas ilusões salvam almas de se esvaziarem por completo.
Da lista jogada ao mar dentro de uma garrafa no primeiro dia do ano, apenas uma ou duas coisas haviam decorrido como o planejado, as demais insistiam em ficar para um próximo ano, tão distante quanto à data em que fizera esses pedidos pela primeira vez.
Ao passo que os dias chuvosos se tornavam agradáveis as esperanças se dissipavam como fumaça. Um dia de chuva geralmente não é tão apreciado quanto um dia de sol, mas enquanto se dorme a chuva é bem vinda. Ele sempre se indagara por que preferia dormir sem chuva e acordar sem dias de sol.
Chegava ao fim mais um longo rápido ano, pois todos sabemos que quando pensamos em que data do ano vivemos, sempre se sabe que será a mais próxima do fim e finalmente vamos ter certeza de que não fizemos nada do que planejamos. Um ano deveria ter mais que 12 meses.
As contradições dos pensamentos de atos passados iam e viam como as ondas do mar que particularmente hoje estavam calmas. Talvez fosse porque até o mar sabia que mesmo em tempos corridos um, ou dois dias de calmaria eram necessários.
Quando se revoluciona um ideal é porque de alguma forma você percebeu que ele valeria à pena. E esse era o maior avanço que Paulo conquistara neste ano. Talvez ele não se desse conta naquele instante, mas sabia que o próximo ano não seria igual ao que passou. E que dias de calmaria servem mais para um descanso do mar e deleite dos pescadores, do que para balanço de frustrações e vitórias.
Ao entardecer percebemos o quão importante foi nosso dia. Ao iluminar dos primeiros fogos é que percebemos a necessidade de ir e vir, como o mar em sua imensidão.

terça-feira, novembro 09, 2010

Árvores

Sentado na janela de um ônibus, observando os carros passar Paulo encontrava vestígios de um falso companheirismo cotidiano. A imensidão de pessoas na rua iludia os mais ingênuos sobre sua solidão. Reparando no passo apressado de cada uma delas, as suas infindáveis conversas ao telefone, ao seu olha vago nas calças, ao som perdido do trânsito.Virou-se para a pessoa que estava ao seu lado e perguntou:
_ Essa cidade é cheia demais – olhando fixamente para o velho senhor que distraído tinha se assustado com a súbita indagação.
_ Eu sei, meu filho, mas cada pessoa que passa por essas ruas tem uma história, tem uma vida – respondeu o senhor.
Paulo, novamente observou através da janela e disse:
_ Essas pessoas são solitárias. – resmungou baixinho fazendo com que o velho senhor fizesse um grande esforço para escutá-lo.
_ Ao que me consta, dizia através da janela do ônibus, a solidão de uma metrópole é uma pequena árvore que resiste ao fim da rua.
Paulo se confundiu com essa resposta, mas sorrio para o velho senhor que parecia satisfeito de ter tido essa breve conversa.
Descendo na rua de sua casa reparou nas árvores ao redor e sentiu que a brisa do mar estava novamente chamando por ele, como se o convidasse para um passeio pelos seus cabelos. Não resistiu e foi conferir qual era essa nova sensação que vinha daquela brisa.
Cada novo passo em direção ao mar significava uma nova experiência, uma nova sensação. Perto de sua pedra favorita ao canto da praia, sentou-se e mesmo com um sol que insistia em lembrar que a perda de seu chapéu era extremamente significante quando ele estava presente.
O diálogo com o velho senhor havia posto mais dúvidas na cabeça de Paulo. Vivia em uma cidade enorme, com milhares de pessoas, muitas vidas e muitas boas histórias para contar, mas insistia na convicção de que a maioria delas era solitária. Não sabia ao certo o que lhe proporcionava tamanha certeza, pois não as conhecia pessoalmente.
A brisa costumeira o fazia fechar os olhos cada vez que ganhava uma nova força. Um esboço de sorriso surgiu em seus lábios e fechando os olhos sentiu o cheiro daquele perfume que havia lhe tirado o sono. Um cheiro novo, mas que parecia tão presente.

quinta-feira, novembro 04, 2010

~_~_~_~

Aos pés do morro, descalços, sem rumo. O vento castigava seus já rebeldes cabelos. Logo adiante se via o soar das ondas batendo nas rochas. Era uma tarde de primavera, o sol era tímido, mas imponente. As dúvidas ainda persistiam e o chapéu se fora. O balanço do mar de agora era o silêncio de outrora.
Sentou-se ao redor de um pedra, observou o mar. Sempre foi difícil para Paulo aceitar que sua vida não era como havia planejado, geralmente as coisas nunca são como nós queremos. Houve um tempo em que sonhar era mais fácil, talvez seja porque quanto menos preocupações, mais tempo para idealizar. Era complicado demais resolver os problemas.
A leveza das ondas impressionava e ao mesmo tempo irritava. Por que era tão fácil para o mar ser sempre um motivo de sonhos e desejos? E se sonhar fosse como o mar por que é tão difícil atravessar a correnteza? Tenho certeza que nem ele próprio sabe.
O tempo passara e a brisa trazia o cheiro doce e suave da mata verde que se via ao redor do morro. A esperança renasceria no fim do dia.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Silêncio

O escuro do quarto era intrigante, dentro do peito a sensação de um emaranhado de sentimentos e no corpo a sensação de três dias sem dormir. A escuridão conforta, mas engole. O som não era mais o mesmo. O barulho ensurdecedor das buzinas na rua em baixo sufocava. Nem o som do mar confortava.

Era mais uma noite densa. Todas as dúvidas e incertezas afloravam e os devaneios rotineiros se escondiam ao redor do quarto em uma espécie de brincadeira de mau gosto.
Mãos na cabeça, pés na parede, coração pulsante, olhos cravos no negro do teto.
- Por que voltou? - indagou ao vento.
- Achei que fosse pra sempre, adeus. Não volta mais. - respondeu o silêncio.
E o soar dos carros passando. O silêncio é eloquente.

domingo, outubro 17, 2010

Cheiro da manhã

Ao som do cantarolar de pássaros despertava de um pequeno cochilo matinal, não havia dormido quase nada. Era domingo. Todo fim de semana a alma pede um banho de mar, pede cabelos soltos ao vento.
A cortina balançava levemente na melodia da brisa, o barulho das crianças no quintal do vizinho não permitiam que se perdesse no tempo. Era fim de semana, era domingo.
Dois dias, apenas dois dias e parece que tudo que havia dado errado durante a semana não passava de uma velha pilha amarela de papéis em cima da mesa prontos para serem descartados. É tão fácil.
Depois de voltar de uma longa conversa de mesa de bar tentara dormir, o corpo pedia um breve alento, pois sabia que ainda teria mais um dia. Às quatro da manhã, sentado a beira da cama. Olhando para os pés sempre dizia 'É tão fácil' e ia até a janela esperar o sol.
Ao primeiro raiar um sorriso surge. O cansaço se esvai e inflama uma alegria irradiante por dentro do peito. Ao som dos pássaros, a sensação da brisa bagunçando os cabelos. Era domingo, mas não um domingo qualquer.
Abre o armário dá uma olhada por cima das roupas, escolhe um chapéu, uma camisa branca. E dá o primeiro passo para enfrentá-lo. (...)