quinta-feira, março 21, 2013

Abotoaduras do cotidiano



Alguns traçados dados como certos por vezes não saem como o combinado. Aquilo que estava nos planos, nos sonhos e já nos dramas pode simplesmente voar pela janela mais próxima. Chances e mais chances estão por todos os vãos, mas são tão difíceis de serem tiradas das entranhas dos azulejos e tacos soltos.
Por baixo do piso há sempre algo preto e nebuloso, obscuro por vezes. As chances são expostas, oferecidas como mercadoria em uma prateleira lustrosa de supermercado. Só que nem sempre são essas as que o seu traçado tinha traçado. O depósito sujo e mal organizado pode guardar diversos utensílios perdidos, sem uso, mas que são úteis.
Alguns traçados levam tempo para darem certo, outros são tímidos e meio tortos, mas não prometem um plano perfeito que tira as chances dos azulejos num piscar de olhos. Não, não é tão simples assim. 
Por vezes é mais fácil rasgar a folha e começar de novo. Sem traçados longos demais, pelo qual ele veja a chance de encontrar uma curva para voltar. São as linhas não tão retas que montam o esquema perfeito para retirar as chances dos cantos do piso.
Os rodapés estão presentes, são pratos cheios para se lambuzar, mas ao menor toque desmontam, rasos e soltos. Assim como os pisos soltos e os azulejos que cobrem as chances. Amontoados de abotoaduras que pregamos lentamente em nosso traçado original que já ganhou tantas voltas e remendos que nem sabe mais se o título original ainda lhe cabe.
De certo ao menos o traçado de amanhã, estando presente ou não pode indicar o primeiro fio para retirar uma chance de baixo do azulejo seguinte.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Cautela e nutella




É muito difícil mover uma etapa. Os blocos do tempo são pesados, mesmo que seu tamanho não seja tão proporcional ao seu peso, mudar de direção, dar o próximo passo; tudo depende de um pouco de força de vontade e disposição. E não importa o mês do ano. É sempre mais fácil virar o rosto e não perceber que a porta está ali, entreaberta, esperando um único empurrão para permitir a entrada.
Entrar em um novo compasso só faz com que os espaços costumeiros percam suas cores e ganhem novas tonalidades. Querer buscar a chance sem sair do lugar pode ser uma alternativa, mas tenha certeza que é só o começo do passo. Mover requer movimento, troca. Sem mais, o importante é acreditar.
Só anda com fé quem costuma acreditar que o próximo passo pode não ser tão distante.
E que o treze que vem ao fim desse ano seja o primeiro passo para as novas e reais mudanças, em seu mesmo lugar, ou além. 
Sem mais, uma dose de cautela, por favor.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Eu finjo ter paciência



"Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
E o mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência"

segunda-feira, outubro 22, 2012

Imensas frases feitas de mar

                                                                      Foto: Heduardo Kiesse

O dia em que a imensidão virar mar eu vou mergulhar como sempre sonhei. Flutuar pelas marolas das frases que o permeiam. Me guiar pelas estrelas de cada novo paragrafo. E ele vai além daquilo que as letras delimitam, ele um dia vai virar imagem. Imensas quanto meu sonho de dividi-las com todos.
O dia em que o imensidão virar mar está por vir, pode ser daqui um pouco, ou daqui um tempo. Vai deixar de ser devaneio e vai permitir que as ondas que o empurram de volta para a praia, sejam as ondas que o levarão para o seu real imenso.
O dia que a imensidão virar mar, vai ser noite. E salpicarão estrelas reais, ancoradas nos desenhos toscos feitos em uma folha  mal rabiscada em uma tarde qualquer.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Pedras de Paulo

                                           Foto: Heduardo Kiesse

Decorei os pisos do quintal de casa. Essas são as últimas coisas que me lembro antes de sair de casa, de  cabeça baixa em direção ao sol. Era dia de chuva e não fitar o chão era como arriscar levar um tombo, mas também permanecer em pé sem se preocupar com os escorregões. Quem nunca cai, também não sabe o que é levantar. 
Eram quase três da tarde, horário atípico para começar algo novo, o mundo me acostumou a dizer que tudo que começa bem tem que ser pela manhã, antes do raiar do sol, dos primeiros cantos dos pássaros. Mas nem sempre o que o mundo me diz eu pretendo escolher. Sem nexo. Segui sem guarda-chuva pela garoa fina da tarde, contando os passos e as falhas em cada piso saí, portão a fora, atrás daquilo que um dia nunca soube o que seria, mas que um belo dia resolvi encontrar. E acordei com a sensação de que já sabia o que queria. 
Pelo caminho os movimentos habituais do dia a dia do mundo e eu ali na janela lateral de um carro alugado. Era sexta-feira véspera de feriado, um feriado que só seria na segunda, mas que sempre começa na sexta. Ao parar em uma avenida movimentada observei na parede desenhada, pichada, chorada, declamada por um poeta urbano uma frase. Sempre acreditei que aqueles que usam dos espaços que são costumeiros ao nosso olhar para se expressar são donos de tudo aquilo que eles puderem criar. O trecho era 'I'll keep singing my song'. E fazia todo o sentido naquele momento de decisão que eu estava passando. Nunca ouse duvidar do poder que uma frase pode exercer sobre você, mesmo escrita por outro, ela pode despertar.
Aquela letra escrita as pressas, sem cuidado, coberta do descompasso que carregava, pode ter sido o primeiro despertar. 
As letras que me acuso a viver são hoje os reflexos de uma frase de parede meia boca que deixei em uma avenida sem pisos molhados, trincados, ou escorregadios. Foi quando deixei de sentir medo em cada passo que comecei a chutar as pedras que impediam meu novo caminho.



quarta-feira, setembro 12, 2012

Art de coração



Eu consumo arte como se fossem balas. Preciso a cada segundo de um som, um sorriso teatral, um gesto dramático, algumas frases soltas. Em minha estante de palácios reservo a cada imagem um pedestal em que permeia a arte.
Visto de leves horizontes minhas necessidades, sentada em um canto estratégico da sala onde posso respirar e pensar aos olhos da imensa janela. Eu preciso de vento e flores, perto ou longe. Perto o quanto for tocável pelos sonhos, longe o quanto eu nunca possa alcançá-los por inteiro. Vivo em um imenso catavento de ilusões e planos, mas vivo sempre de arte. Descobri que meus bloqueios são sensações que nunca experimentei, todas breves.
Eis que me exponho como as páginas do livro que leio, serena, no metro. A doce voz ao meu redor me envolvendo em bucólicas lembranças da minha infância perto da natureza, do mar dos meus fins de semana. Eis uma breve descrição dos meus sinais.
Escrever em primeira pessoa é saber que a arte te expõe por completo. Quanto a escrever por meio da voz de outros é vestir-se de inúmeras capas que podem nos levar a qualquer lugar, circunstâncias novas. Não julgo nenhuma opção, sou adepta das trocas e mudanças que a folha em branco nos propõe. As brancas, bege e belas, brancas amareladas folhas, digitais ou não. Eis as gavetas dos papéis e textos dispersos com a letra feia mais caprichada que existe.
Viver de arte é um oficio momentâneo, procuro encontrar sua resolução máxima. Desacredito naquilo que não posso acreditar, ou seja em nada que não tenha arte. E prevejo que não há nada que não possa ser vista com um pequeno detalhe dela. Reinvenção de linhas, gestos, sonhos. Meu lema, minha fé. Amor.
As palavras, as vozes, a arte, me confortam. Escrevo ao rodapé aquilo que nunca gritei.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Bolhas de expectativas

                                                                    Carmo Dalla Vecchia

Haja o que houver sempre colocou na cabeça que criar ilusões sobre as pessoas que criava em sua mente não passaria de mais um degrau que construiria em sua vida e que ao fim de uma jornada sempre o derrubava lentamente, rolando em cima de demônios chamados expectativas. Essa era uma lição que pretendia levar adiante dessa vez, mas no fundo sabia que iria construir novamente uma escada, esperando terminar de escalar os degraus sem tombar, ou ao menos sabendo dosar os passos. Um de cada vez, lentos, nunca atropelados.
Não adiantava mudar muito, mesmo se tornando sombrio e frio, nunca deixará de ser persistente e acreditava que cada nova escada de expectativas que montava para as pessoas de sua vida um dia deixasse-o chegar ao topo. Distante e simples. Como diria sua voz interior (que tinha rosto e não era o seu), o mais importante não é deixar de viver sob o que criamos das pessoas do nosso convívio, mas lembrar-se sempre que o que criamos nunca deve superar a realidade. Ria toda vez que lembrava como ela dizia isso, com os pés sobre a mesa da sala, a preferida e nunca desorganizada. Era a única que permitia ser superior aos  objetos daquela mesa. "As pessoas são de carne, mas no fundo todos somos de plástico, feitos de bolhas que cada um estoura como pode", falava enquanto mordia uma maça roubada da cozinha. Divagava encantadoramente.
Pensava sempre que no fundo era mais ou menos isso, mais para mais do que para menos. Confuso jeito doce de encantar o rude dono da mesinha da sala endeusada. Era uma bolha que estourava por dia, mas uma nova que se formava em torno da sua voz interior preferida.