quarta-feira, julho 23, 2014

A escada rolante



Caminhar pelas estações do metrô de São Paulo é qualquer coisa parecida com mergulhar em um mundo paralelo. Todos os dias, eu subo e desço as escadas da Consolação. Certas vezes pela rolante, ou, quando a pressa me obriga, corro as escadas que não se movem, mas que estáticas e rígidas, nos impõe o trabalho pesado de simplesmente subir as pernas e alcançar mais um degrau.
O mais engraçado nesse vai e vem de pessoas é notar como cada uma delas, nesse curto espaço de tempo entre a subida e a descida da escada, nos são parecidas e ao mesmo tempo completamente diferentes. Quando desço as escadas, sempre pela manhã, a cara amassada da maioria delas (e a minha) me impede de prestar muita atenção aos gestos e expressões. Na volta, quando subo as escadas, geralmente a rolante, porque convenhamos no final do dia o que mais precisamos é de uma máquina que faça o trabalho pesado pelos nossos pés!
Ao subir a escada rolante me transporto para um mundo novo. Subindo cruzo com a escada que desce e posso, nesse instante, reparar em cada rosto, gesto, sorriso, olhar de quem está indo ao encontro do velho trem.
Ali vem a senhora com a roupa fina e o nariz empinado, logo atrás o casal de namorados, onde um sempre desafia a gravidade descendo de costas simplesmente para ficar mais alguns segundos observando o ser amado. Mais acima, a menina que vem se equilibrando com seu pequeno espelho enquanto retoca o batom vermelho. Mais abaixo, a criança que ignora veementemente as ordens da mãe e fica subindo e descendo ao contrário. Ao longe, avisto o belo rapaz de cabelos lisos, ele me olha, mas eu desvio. Lá no topo a senhora hesitante, não sabe qual pé coloca primeiro e na dúvida dá um pulinho se agarrando ao corrimão oscilante e me tira um sorriso. Lá vem mais um adolescente que desce sem nem ver, um olho no celular outro no mp3.
E eu estou ali, subindo e observando o constante vai e vem. Aquele pequeno intervalo de tempo entre o chão e o topo. Todos aqueles rostos, todas aquelas vidas. Elas que me ignoram e nem ao menos sabem que me intrigam.

Há dias em que a cabeça pesa, e no caminho até a escada vou mastigando meu dia a dia, chutando as pedrinhas imaginárias dos meus problemas. Às vezes venho conversando, mexendo no celular, rindo, cantando. Mas me deparo com a escada. Noto que cada degrau que vai subindo lentamente me faz um convite para arriscar mais uma subida. Paro e hesito, assim como a velha senhora, e dou o primeiro passo. E lá estou eu novamente, cruzando vidas em rostos, em busca de acolhida.

quarta-feira, junho 18, 2014

Solar das bromélias

Era domingo, mais um domingo. A família estava toda reunida, as sobrinhas, minha filha que viera com seu marido insuportável, minha neta e, sua espécie de namorado. Eu, François Oliveira, sempre estive cercado por mulheres. Era o homem da casa, sem dúvida. Quando me casei com Margarida, no dia 15 de novembro de 1970, um dia escolhido por mim, não sabia que meu destino continuaria reservado a elas. Tive uma filha e apenas sobrinhas.
Alistei-me no exército, me casei, tornei-me professor de português. As letras sempre foram minha paixão. Lecionei por quase 35 anos, pois considerava que era na juventude que podíamos formar o caráter das pessoas. Esse sempre foi meu objetivo de vida, formar cidadãos conscientes e instruídos. A política era minha segunda paixão, votei em todas as eleições, coleciono todos os comprovantes, estão na terceira gaveta do quarto, ao lado das minhas medalhas do exército. Não acreditava que a boa parte das pessoas desse país não desse atenção a política. Nunca deixei de introduzir o assunto em todos os locais onde frequentei. E a mesa do almoço de domingo era um desses locais favoritos.
Melissa, minha neta, tinha trazido seu namorado para nós conhecer. Ele tinha cabelos longos demais para um rapaz de bem, usava colares e pulseiras suspeitas e, pior de tudo, usava um brinco de cigana. Ainda suspeitei que tivesse visto uma tatuagem pela manga de sua camiseta, mas achei que poderia ser apenas sujeira devido às condições de sua aparência. Eu o encarei com minha expressão mais dura, Melissa remexia as mãos sobre a mesa desconcertada. Joana, minha filha, tentava tirar o foco do garoto, mas eu não dei o braço a torcer. O banana do meu genro agia como se tudo aquilo fosse normal. Ofélia, minha irmã mais nova, quebrou aquele instante falando:
_ Vocês viram as fotos da confusão da greve dos motoristas de ônibus? – disse, me fazendo virar o rosto pela primeira vez.
_ Acho um absurdo. Esses vagabundos atrapalham a vida das outras pessoas com esses movimentos infundados, patrocinados por essa esquerda medíocre que assumiu esse país – lembro-me dessa fala, utilizava-a com frequência.
Vi pelo canto do olho que Melissa revirou os olhos e fitou o namorado. Pela sua expressão ele se segurava para dizer alguma coisa. Encarei-o e disse:
_O senhor dos cabelos e brincos de mulheres quer dizer alguma coisa? – o garoto me encarou sério, aquele velho olhar de petulância que todo jovem mal educado possuía e que eu conhecia bem.
Ele se levantou, se despediu e saiu da mesa, com Melissa ao seu encalço. Todos se entreolharam e me encararam. Aquele olhar que já estava associado à maioria dos almoços de domingo. Esse olhar que sempre me acompanhou. Sempre achei um triunfo levá-lo comigo e ainda o levo como prêmio, mas não mais de vitória.

Era domingo, mas não havia almoço, nem as meninas. Apenas eu, aquele olhar e as plantas frescas e coloridas do jardim. Aquele colorido incomodo que envolvia a placa de entrada: casa de repouso solar das bromélias.

quinta-feira, maio 29, 2014

Aperto do tempo



Aperto do tempo

 

Vindo da sombra.

Rastro que zomba.

Reflexos conexos

espelhos de lua.

 

Vinda do dia

me traz poesia,

pele macia.

 

Ao passo do vento

és sofrimento;

 

Ao canto do pássaro:

prende,

me vira,

num rastro.

 

Terra, brilha.

Ilude, excita.

 

És como a vida:

num passo

um compasso,

num falso

acolhida.

 

Ponto, meu guia,

me cria.

 

Me pego em seus olhos

oh triste

linda,

menina.

~~

(Poema feito para a oficina de escrita criativa da Casa Mário de Andrade)

E a poesia me descobriu...

segunda-feira, maio 19, 2014

Jabuticaba



A jabuticaba em sua boca.
Sentido que me deixa louca
O avental, a mesa.
o elástico solto.

Olhar hipnótico,
sorriso simplório.
Brilho constante.

Toque envolvente,
ouvido presente.
Aqui e agora.
Te quero,
não demora...

quinta-feira, maio 15, 2014

Polvo



Todos os rostos
Pouco negro,  pouco branco
Um cor de rosa
Uma cor de jambo

Um pálido embaço de uma indecisão
Moreno claro, negro desbotado, castanho amarelado
Cor de outono, cor de junho

Essência negra
em uma pele que se quer branca

Eis um cenário onde todo azul
quer ser verde
onde todo preto
quer ser branco

Eis uma essência de múltiplas cores
transvestidas em rostos
transbordando o emaranhado de toda uma gente

Uma essência de rosas
salmão, marrom
alvo amarelo

O mesmo rosto,
diversas marcas de uma mesma
descrição

Sou da cor do povo
polvo
um mesmo coração



~~

Esse poema, sem rimas, me veio enquanto observava a exposição Polvo de Adriana Varejão. Porém, não é preciso rimar quando se precisa apenas encaixar as palavras a seus sentidos. Galpão Fortes Villaça, até 17/05.

sexta-feira, maio 02, 2014

Exigiria do tempo essa fatídica ideia de que o agora e o para já fossem menos dolorosos para aqueles que vivem da ociosa paixão de esperar.

quinta-feira, maio 01, 2014

Devaneios de domingo


Thássia Moro

Era tarde de domingo de primavera, exatamente 15:33. Um dia comum, como a maioria dos dias. As flores no jardim davam a falsa impressão de comodidade, eram belas, coloridas e se espremiam por um espaço ao sol no pequeno canteiro ainda não revirado. Lá estava ela, sentada a beira do jardim, mexendo nas flores. Parecia destoar da paisagem, a rua em movimento, mas calma, e ela lá em seu canto costumeiro, ia sempre revirar o jardim do prédio. Ele a observava, cheio de interesse e uma espécie de desprezo. Parecia louca, perdida em pensamentos. Não sabia até hoje por que nunca ninguém havia a impedido de mexer em um ambiente da área comum, será que pensavam que ela o arrumava? Para ele parecia que ela o deixava em pedaços toda vez que se sentava ali. De um lado para o outro, a cabeça em movimento, como uma dança que só ela sabia.
Ela era a vizinha de algum andar, não sabia ao certo qual, cruzará uma ou duas vezes nas escadas e no hall. Parecia que nunca pegava o elevador. O prédio não era alto, nem haviam tantos apartamentos, mas não sabia qual ela morava. Tentará indagar o porteiro, mas de tão distraído ao futebol e a vida alheia, temia ser mais um assunto na seleta lista fofocas dos condôminos. Preferia a descrição.
Nunca trocara uma palavra, nem bom dia, nem boa tarde, muito menos boa noite. Nunca a vira de noite. Apenas uma vez se entreolharam, simples. Olhos escuros, profundos. Cabelos negros, ondulados como o mar, bonita feito uma oferenda a Iemanjá. Era assim que gostava de imaginá-la. Perdia-a pela rotina, mas quando chegava domingo tirava-a dos devaneios e das gavetas do cotidiano. Quando chovia ela não vinha, sumia feito fumaça. Uma nuvem de comparações. Gostava do céu aberto, do sol na pele. Branca feito uma nuvem de dias de verão. Nunca se escondia dos raios, por mais fortes que fossem, eles pareciam não se arriscar a machucá-la, não ficava vermelha, nem bronzeada. Talvez um pouco corada, mas de longe não podia ter certeza, apenas imaginava.
Em tempos normais teria descido e tirado ao menos duas palavras daquela boca, mas hoje não. Talvez na próxima semana. Perderia o ângulo do balançar silencioso da cabeça em seu vai e vem enquanto retirava uma planta morta, uma erva daninha. Intitulara como uma contemplação. Algumas vezes colocava uma música ao fundo e passava horas observando-a. Um sorriso no canto do lábio, pequeno. Como se a conhecesse, como se permitisse o momento de solidão e prazer que a mantinham naquele jardim.

Algumas vezes achava que ela plantava e arrancava a mesma flor repetidas vezes, mas quando passava observando no outro dia notava que não, ela apenas abria o espaço para os pequenos brotos nascerem.


(Continua...)