quinta-feira, janeiro 15, 2015

O exato hoje do momento

                                                                        Slava Triptih
Constantes,
quase antes
não outrora
nem adiante.

Momento exato,
clima de instante.
Não se encaixa
antes
nem depois.
Agora
E ponto.

Exato feito o ato.
Um tato,
dois, adiante.
Momento preso
Solto
Leve
Doce.

Sem descrição.
Ágil
em contornos,
meu momento.

Em um agora
criado
para ser
mil e um
instantes.

terça-feira, novembro 25, 2014

Pensamentos do Pensar



Prendo-me em presas
lentas do Pensar.

Leves,

ligeiras,

intensas.

Feito o Pensamento

que me peguei

Pensando.

 

Penso no que se opõe

em meu tempo

a caminhar.

 

Rendo-me em crenças

e me desprendo a

Pensar.

 

Ouso um vácuo,

dois ou três minutos,

mas rendo-me ao fato

de ter de pensar a cada minuto.

terça-feira, novembro 18, 2014

20 segundos

                                                                  Charles Leval

Uma pequena crônica de um dia semi perdido

Rasgo o verso em gritos prontos. Seco, feito papel. Passo raiva feito poucos. Era para ser duplamente feliz, pois todo momento feliz só faz graça se tiver mais um para rir. 
Soco a tela, aperto sem parar a tecla. Resmungo baixo, pois todos ouvem. Aperto sem parar o celular. "Eaí? Deu? Eita! Como assim?". Apitando feito alarme a soar.
Atualizo e tento de novo, penso alto, Esse CEP tá certo? Não brinque ok, 500, Boa Viagem. Foi. E não foi.
Vinte segundos entre um clique e o fim. A dura palavra que se destaca no topo da página, não pode ser já era. Só ano que vem.
O apito vira vibração e a tela um pisca-pisca ininterrupto. E agora? Como escrever que não tinha ocorrido, o que deveria ter sido? Tristes, poucas palavras ecoadas pelas teclas de um teclado de tela. Não deu. 
E depois a frustração, jogada na cadeira. Todos ao redor sem notar. O celular sempre a apitar. E então surge a raiva, os palavrões e a tentativa sem chance de dar F5 na página travada. E lá no alto as duras letras de um dia semi perdido. 
Muitos vão chamar de drama de TPM vencida, mas não, é apenas um assopro que empurrou mais para frente um plano traçado. Mas, todo plano tem uma tecla mal sucedida, para que, lá no fim, bem perto da conclusão ela faça parte de um teclado que irá escrever o enredo final.
E surge a dúvida, os por quês, as perguntas que não foram feitas no momento da euforia do ponto anterior, pois uma parte foi concluída, a outra ficou por 20 segundos. 
Entre a raiva e a frustração surge à calma, pois ainda há chance. E de chance em chance se faz outro apito na tela menor. “Eii, calma, vai dar certo. 2015 é logo ali".


sexta-feira, novembro 14, 2014

Dois tragos, uma vida

                                                                                       Benoit Courti

Tarde de terça feira, três e quinze. O velho relógio sem pilha continua no mesmo lugar, apontando a mesma hora de ontem, antes de ontem. Estou sentado em minha velha cama, toda preenchida por furos e cinzas. Nunca tive um lençol branco, desde que Ana se foi, que durasse mais de um dia sem se tornar amarelo ou cinza. A TV em um canal aleatório, um telejornal qualquer, não sei. Pego mais um cigarro, fumo em três tragadas. Deixo-o de lado, tiro mais um.
Já são quase cinco da tarde, o dia começa a ficar sonolento pela janela. Eu começo mais um maço. Não sei mais se é o quarto ou o quinto. Calculo meu tempo pela quantidade de bitucas espalhadas pelo chão.
Desde que me aposentei e Ana partiu, não passo um só dia sem fumar. Cada tragada traz um pouco da vida que vivi, ou acho que vivi. Nem me lembro mais. Ana sempre dizia, com sua doce cara raivosa, “meu velho tire esse cigarro da boca, isso vai te matar um dia”. Mas ela foi primeiro e não fumava.
Já são oito horas, fumo meu último cigarro, tomo meu primeiro e último gole desse whisky barato que guardo na gaveta. Limpo as bitucas da cama, me preparo para mais uma tragada. Fecho os olhos e espero mais um dia, o último. Solto levemente a fumaça da certeza de minha decisão, a mesma que corrói e me traz mais para dentro da última tragada da minha vida.

quinta-feira, novembro 06, 2014

O aroma do vapor

O breve pesar da cadeira de balanço
vai o vento,
vem o encanto.

Sorriso, calmo
canto de rosto.
A velha casa em contornos
vai o tempo, 
vem teu rosto.

Em seu tique taquear de dedos
cruza um jeito
vem de encontro.

Sobre a mesa
medos, sorrisos,
lembranças.

A chaleira esfumaçante,
vem o vento,
traz vapor.

Olhos calmos, rasos.
Um vem e vai
de espaços,
cheiros
e sabor.


domingo, outubro 19, 2014

Em mim




Era para ser um pouco meu. Mais meu do que seu. É, praticamente meu. Não em posse, mas em jeito. Se encaixa em todas as canções, o que se idealiza em todas as direções.
É um reflexo, o da janela no fim de tarde. Eis que nesse momento toca, aquela que te define. Em mim.
Nem ao vivo, nem à distância, em mim já és.

"Um dia eu vou ficar bem só pra te querer mais, onde quer que eu ande bem, domingo é pra te dar paz"...

Aquilo que só em mim se faz. Não assuste, não me assuste. Cada letra nesse branco, cada melodia nesse canto. 
Poesia de um domingo chuvoso. Versos de um acaso que procura encontro.
Em mim.


~~
Desenho: Laís J. Silva

quinta-feira, outubro 09, 2014

Esse texto não merece um título



Esse é um texto escrito com raiva. Não pelas palavras, mas pelo momento no qual estou escrevendo. Escrevo esse texto sob o efeito das piores sensações que já senti pelo ser humano: fúria e indignação. Não, não espere que eu lhe de o motivo, nem o causador de tal mal, pois não consigo reproduzir ato tão absurdo, nem falado, nem escrito. Usar do poder e da magia das palavras para reproduzir tal infâmia seria desonesto com o poder de cura que elas exercem sobre mim.
Esse é um texto que se tivesse gosto seria o mais amargo que você possa imaginar. Aquele gosto de cabo de guarda-chuva que você sente quando o mundo despenca. Meu mundo não despencou, mas uma boa parcela da esperança que eu tinha nele sim, talvez a mais bonita delas, a fé na humanidade. Este é um texto que se encaixa em qualquer momento em que você precise ocupar um espaço, porque, mesmo coberto de lacunas é melhor do que vê-lo em branco. Branca é a cor da paz que eu não sinto nesse momento.
Este é um texto escrito sob uma chuva de lágrimas. Frias e ao mesmo tempo quentes. Lágrimas de indignação, dor, raiva, vergonha. Esse é um texto que está sendo escrito, porque preciso manter minhas mãos ocupadas para não socar a parede, pois mesmo com todo o mal, prefiro a violência das palavras.
Esse é um texto que bem poderia conter uma porção de palavras de baixo escalão, mas já proferi todas elas através da fala. Deixo a escrita para que me acalme o coração e a alma. Não por agora, mas que me mantenha ao menos parada, pois rodar em círculos só me causou dor de cabeça.
Essas são palavras que escrevo com a minha cara mais enfurecida, com meu rosto já inchado de tanto chorar. Escrevo para deixar registrado que a crueldade do ser humano me revolta, em todos os seus aspectos. Mas contra os indefesos, ela me deixa possessa.
Esse é um texto que escrevo, porque não consegui manter minha cabeça no travesseiro e porque cavar um buraco no assoalho e me enterrar só me faria ter mais despesas do que consolo. E o consolo que encontro aqui, nem o mais acolhedor abraço pode me dar.
Esse texto é uma prece, pois peço perdão a quem quer que esteja me ouvindo por algo que não fiz, mas que tenho vergonha de saber que alguém fez. Esse é um pedido de socorro, porque preciso acordar desse pesadelo. Quem quer que seja que está aí, acenda a luz, pois desse escuro eu quero sair.
Esse texto é uma terapia, desenvolvida em doses homeopáticas de consoantes e vocais. Essas são palavras sobre um desespero, calculado pela raiva e por vezes pelo desprezo. Mas, principalmente pela impotência da minha distância e da de quem esteve presente.
No ardor desses maus sentimentos, busco aqui, folha em branco, o que ninguém pode me dar. Paz.